Semeando Ideias Reformadas

Promovendo a doutrina e piedade reformada

Nossa Missão

Prover recursos teológicos acessíveis e sólidos que respeitem o contexto local, servindo como uma ponte de ensino para pastores, líderes e cristãos angolanos e brasileiros, priorizando o crescimento da sã doutrina em solo angolano.

Últimos Artigos

Criação Ex-Nihilo

Criação ex-nihilo é uma expressão latina para designar a compreensão da doutrina bíblica da criação. Com a expressão criação ex-nihilo se quer dizer que Deus criou o mundo sem qualquer matéria ou meio preexistente. Deus simplesmente falou e as coisas apareceram, com espaço e o tempo que precisavam ocupar. Essa doutrina não tenta explicar o processo da criação; ela deixa isso em mistério. E isso não deveria ser um problema para nós, visto que a afirmação de ser Deus o criador dos céus e da terra é pressupõe a confissão na onipotência de Deus. Embora criação ex-nihilo não seja um termo que se acha no cânon bíblico, vários textos da Bíblia parecem ensinar isso de modo implícito. Digo implícito porque não há passagem bíblica que a ensine de modo explícito. [1] No entanto, Gênesis 1.1 registra o início da criação, apresentando Deus criando o mundo sem material preexistente. A parte restante de Gênesis 1 descreve Deus criando todas as coisas pelo poder e comando de sua palavra. É importante notar que Deus faz isso em cada dia da criação, fato em si, que refuta a teoria da evolução. Pois esta afirma que a criação surgiu de uma “seleção natural”, a partir de longos períodos de tempo, a famosa ideia de ancestralidade comum de todas as espécies. [2] A Bíblia apresenta o ato criativo de Deus como sendo mediata (com meios) e imediata (sem meios). Sabemos que os céus e a terra foram criados imediatamente, ao passo que tanto homem como algumas criaturas foram criados mediatamente, isto é, a partir da terra (Gn 1.24; 2.7). Gênesis registra com repetição frequente que o homem, as demais criaturas, bem como as plantas foram criados “segundo a sua espécie” (Gn 1.11-12, 21, 24-25), sendo que estes não produzem outras espécies. Ademais, a narração da criação diz que do homem foi feito do pó da terra, que o sopro de Deus o tornou alma vivente (Gn 2.7) e que em tudo isso ele fora criado à imagem de Deus (Gn 1.26-27). Hebreus 11.3 é outro texto fortemente utilizado para defender a doutrina da criação ex-nihilo: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”. Este texto faz clara alusão a Gênesis 1. Vejamos as sentenças que ele ensina: 1) A criação é um fato que apreendemos somente pela fé – “Pela fé, entendemos que foi o universo formado” – Visto que ninguém estava presente quando Deus criou o mundo, a crença de que a criação se origina com Deus torna-se um ato de fé. O homem tem de confiar no que Deus diz em sua Palavra sobre a origem do mundo. 2) A criação veio a existência pela palavra de poder de Deus – “foi o universo formado pela palavra de Deus” – O termo fé governa as sentenças de Hebreus 11.3. Pelo que o mesmo que foi dito na sentença anterior sobre a crença no que Deus diz sobre a origem do mundo também se aplica aqui. A criação veio a existência pela palavra de comando de Deus. Salmos 33.9 também diz isso: “Pois ele falou, e ele veio a existir; ele ordenou, e ele ficou firme”. 3) A criação visível surgiu do invisível – “de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” – essa linguagem é coerente com a doutrina criação ex-nihilo, e até a sugere. O problema é que ela deixa em aberto a possibilidade de Deus ter criado o mundo a partir de algo invisível, de um material preexistente invisível. No entanto, podemos citar Romanos 4.7 para fazer conexão com esta sentença de Hebreus: “[…] o Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem”. É verdade que este texto não fala da criação, mas sim da esperança de Abraão de que teria um filho. No entanto, a ideia geral de Paulo pode ser fielmente aplicada aqui: Deus é poderoso para trazer a existência o que não existe. Nesta mesma linha, podem ser citados outros textos como 1 Coríntios 1.28 e 2 Coríntios 4.6 como textos que sugerem a ideia de criação ex-nihilo. Esses e outros motivos (não apresentados aqui) [3], devem nos fazer rejeitar a teoria da evolução como a doutrina da criação, não importa se é evolução ateísta (naturalista) ou teísta. Nas palavras de Louis Berkhof, “evolução teísta é uma contradição de termos. É tão destrutiva para a fé na doutrina bíblica da criação como a evolução naturalista; e recorrendo à atividade criadora de Deus de vez em quando, anula também a hipótese evolucionista”. [4] Por: Kennedy Bunga NOTAS:[1] – Veja a discussão sobre isso em FRAME, John. Teologia Sistemática. SP: Cultura Cristã, p. 256-258. Vol. 1[2] – HAM, Ken et al. A origem: quatro visões cristãs sobre a criação, evolução e designer inteligente. RJ: Thomas Nelson, 2019, p. 159-162[3] – Para uma crítica mais robusta, veja GRUDEM, Wayne et al. Evolução teísta: uma crítica científica, filosófica e teológica. SP: Vida Nova, 2022.[4] – BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 4ª ed. SP: Cultura Cristã, 2012, p.130.

Triagem Teológica

A história do termo Triagem é um conceito da medicina aplicado a Teologia. No contexto médico, todos os pacientes não recebem o mesmo grau de urgência no tratamento; geralmente há um sistema de priorização nos tratamentos médicos.  O termo triagem teológica foi cunhado pelo teólogo Albert Mohler, a fim de fazer referência aos diferentes graus de importância das doutrinas e a urgência da necessidade delas no tratamento no contexto teológico. A ideia da triagem teológica A ideia da triagem teológica é classificar as doutrinas em diferentes graus de importância e urgência.  Esses são dois aspectos da triagem teológica. As razões para isso são: 1) existem doutrinas que valem a penas lutar por elas, ao mesmo tempo em que existem doutrinas pelas quais não vale a penas lutar; 2) existem doutrinas de urgente necessidade para tratáa-lasr na igreja,  e doutrinas que precisam ser priorizadas a fim de sermos mais eficientes na nossa missão de agradar a Cristo, no serviço àa sua igreja e na promoção do seu Eevangelho.  É uma tolice pensar que todas as doutrinas têm o mesmo graãuo de importância e urgência. Ao nivelarmos todas as doutrinas, manifestamos o tolo desejo de querer lutar por tudo ou o frouxo desejo de não querer lutar por nada. A triagem teológica é um conceito importante para, por um lado, acalmar os filhos do trovão (aqueles que têm zelo doutrinário, mas sem entendimento – Rm 10.2) e, por outro lado, despertar os pacifistas (aqueles que têm entendimento, mas sem zelo doutrinário – Ap 2.19-20; Jd 3). Categorização das doutrinas Existem muitas maneiras de distinguir ou categorizar doutrinas. Roger Olson sugere categorização tríplice: 1) Dogma; 2) Doutrina e 3) Opinião.  Entretanto, outros estudiosos, como Erik Thoennes, Daniel Wallace e Gavin Ortlund têm sugerido categorização quádrupla das doutrinas: Estudo de casos Apresentamos abaixo alguns tópicos para servir de exemplo na abordagem de categorização das doutrinas.   Conclusão Todas essas informações são para termos ciência da importância de categorizarmos as doutrinas. Nem todas as doutrinas são razões de brigas e desunião entre irmãos e denominações. Infelizmente hoje muitos irmãos vivem em rixa por questões tão banais, que não afetam diretamente em sua salvação. Precisamos de unidade nas doutrinas primárias, fraternidade nas doutrinas secundárias e humildade nas doutrinas terciárias e quarteranárias.  Por: Kennedy Bunga

Quando a igreja se deixa moldar por outras vozes Part. 3

Parte 3/3 Giovanni Casimiro 3 A necessidade de igrejas saudáveis As grandes ameaças que a igreja de Cristo enfrenta — seja pelo liberalismo teológico, pelo Movimento de Crescimento de Igrejas (MCI) ou por outras correntes — devem alertar os líderes. Não se trata apenas de debates intelectuais: muitas destas influências deturpam a santa Palavra de Deus e conduzem comunidades à letargia, à doença espiritual e ao desvio. Precisamos de uma resposta prática: edificar igrejas saudáveis, porque esse é o caminho bíblico para enfrentar as enfermidades que assolam a igreja hoje. Esse caminho passa por um entendimento claro e por uma aplicação sólida das marcas que definem uma igreja saudável. Desde cedo, a história cristã procurou estabelecer critérios para reconhecer a verdadeira igreja. Com o surgimento das heresias tornou-se necessário, como lembra Berkhof, “estabelecer um padrão de verdade ao qual a Igreja deve corresponder.” (Berkhof, apud Maia, 2007, p. 113). Em linguagem prática: a comunidade cristã não pode ser definida apenas por aparência ou boas intenções; deve corresponder a um padrão de verdade. Na Reforma, essa preocupação foi expressa com clareza. Grudem cita Calvino: João Calvino afirmou: onde quer que ouçamos a Palavra de Deus puramente pregada e ouvida, e os sacramentos ministrados conforme instituídos por Cristo, ali, e não se deve duvidar, existe uma igreja de Deus. (Grudem, 2010, p. 724) Estas balizas históricas encorajam e alertam. Uma comunidade onde a Palavra não é pregada fielmente e os sacramentos não são devidamente ministrados afasta-se do padrão bíblico e corre o risco de tornar-se — na expressão forte do debate histórico — uma falsa igreja. Dito de outro modo: há igrejas verdadeiras (doutrinariamente ortodoxas) que, contudo, estão enfermas na sua vida prática; reconhecer essa distinção é essencial para o trabalho pastoral. As marcas tradicionais que ajudam a diagnosticar a saúde e a veracidade da igreja são várias. Entre as que costumam ser apontadas, destacam-se: pregação expositiva, teologia bíblica, a centralidade do Evangelho, evangelização, conversão, membresia, disciplina bíblica, discipulado e liderança eclesiástica. Neste trabalho escolheremos tratar de cinco delas, de modo a cumprir os nossos objetivos com a devida profundidade. Mark Dever observa com sobriedade: A igreja não é perfeita. Mas, graças a Deus, muitas igrejas imperfeitas são saudáveis. Entretanto, receio que uma quantidade maior de igrejas não o sejam — mesmo entre aquelas que afirmam a divindade de Cristo e a plena autoridade das Escrituras. (Dever, 2013, p. 24) Ou seja, ter credos corretos não elimina a necessidade urgente de vitalidade prática e discipulado. Vários autores que estudam a revitalização de igrejas notam que, como organismos vivos, as congregações passam por ciclos: nascem com vigor e alegria, mas podem envelhecer e perder vitalidade. Swindoll sintetiza bem esse padrão: As organizações tendem a perder a vitalidade ao invés de ganhá-la à medida que o tempo passa. Elas tendem a dar maior atenção ao que foram ao invés do que estão se tornando. (Swindoll, apud Santos, 2011, p. 12–13) São muitos os factores que conduzem uma igreja verdadeira ao enfraquecimento — acomodação espiritual, defesas pastorais ineficazes, falta de discipulado, liderança frágil, substituição da centralidade bíblica por metodologias. Por isso, a revitalização é um tema recorrente entre pastores e teólogos. Michael Ross define revitalização de forma útil e prática: O processo por meio do qual uma igreja é redirecionada à sua missão de evangelização e edificação, bem como renovada no esforço de ministrar aos outros de tal forma que o crescimento numérico, espiritual e organizacional se torna uma realidade. (Ross, apud Santos, 2014, p. 137) É importante distinguir revitalização de avivamento. O avivamento ou despertamento é, primariamente, obra especial do Espírito Santo — um derramar que não se reduz a técnicas humanas. A revitalização, por sua vez, refere-se a um conjunto de acções intencionais — teológicas, pastorais e estratégicas — para restaurar a vida de igrejas em declínio. Não se trata de “programas brilhantes” temporários, mas de recuperar marcas bíblicas duradouras. Por isso acreditamos que as marcas que apresentaremos a seguir não são apenas critérios diagnósticos; são também instrumentos de restauração. Quando recuperadas e praticadas com fidelidade, essas marcas podem ser o divisor de águas entre uma igreja apenas “verdadeira em formulários” e uma igreja realmente saudável e viva. Conclusão  A história mostra que a igreja pode conservar doutrina correta e, ainda assim, adoecer na prática. O nosso desafio pastoral é duplo: rejeitar as influências que corroem a autoridade da Palavra e reconstruir comunidades à imagem do Evangelho. Revitalizar não é modernizar a qualquer custo, nem regressar passivamente ao tradicionalismo; é restabelecer a centralidade da Escritura, o discipulado fiel, a pregação expositiva e a liderança responsável — para que o crescimento que venha seja, de facto, saudável e duradouro. Bibliografia de consulta COSTANZA, J.R.S. As raízes históricas do liberalismo teológico. In: Revista Fides  Reformata X nº 1, 2005, p. 76-99 DEVER, M. 9 marcas de uma igreja saudável. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2013 DUARTE, J. A., Os perigos do movimento de crescimento da igreja (MCI) para a  revitalização de igrejas. in: Revista Fides Reformata XXI, Nº 2, 2016, p. 97-123, MAIA, H,. Fundamentos da teologia reformada. SP: Mundo Cristão, 2007 MACHEN, J. G., Cristianismo e liberalismo. SP: Shedd Publicações, 2012 MACARTHUR, J. F. Com vergonha do Evangelho: quando a igreja se torna como o  mundo. São José dos campos, SP: Editora Fiel, 1997 MCDERMOTT, G. R.,. Grandes teológos: uma síntese do pensamento teológico em 21  séculos de Igreja. SP: Vida Nova, 2013 GRUDEM, W., Teologia Sistemática, actual e exaustiva. 2ª ed, SP Vida Nova, 2010 LOPES, H. D., A importância da pregação expositiva para o crescimento da Igreja.  SP: Shedd Publicações, 2008 SOBRE O AUTOR Giovanni Casimiro  é formado em Direito (Universidade Metodista de Angola) e em Teologia (Seminário Emanuel do Dondi). Especialista em Teologia Reformada pela (IRSP/FASU) e em Cosmovisão Cristã (STAS). Mestrando em Estudos Bíblicos pelo International Reformed Theological College.

Quando a igreja se deixa moldar por outras vozes Part. 2

Parte 2/3 No início do século XX, a propagação da falsa doutrina liberal devastou um grande número de igrejas ao redor do mundo — basta olhar para o estado da igreja na Europa. Hoje, embora a teologia liberal já não esteja no seu apogeu, surgiu outra filosofia de ministério, mais sutil, mas igualmente perigosa: o Movimento de Crescimento de Igrejas (MCI). A sua sutileza consiste em, à primeira vista, não parecer ameaçar doutrinas centrais; os seus pressupostos aparentam ser meramente metodológicos. Não nos deixemos iludir. Um dos propósitos óbvios da igreja é alcançar o mundo com o Evangelho. Quando não vemos frutos visíveis desse esforço, a frustração leva muitos a procurar soluções práticas: novos métodos, programas interativos, música “mais atraente”, ou um ambiente de culto mais descontraído para “tirar o rótulo de igreja chata”. É aí que o MCI entra — e, sem que percebamos, transforma meios em fins. John MacArthur descreve com franqueza a lógica desse movimento: A nova filosofia é objectiva: a igreja está competindo com o mundo. O mundo é hábil em captar a atenção e os sentimentos das pessoas. A igreja, por outro lado, tende a ser muito pobre na ‘venda’ de seu produto. Portanto, o evangelismo deve ser visto como um desafio de marketing. (MACARTHUR, 1997, p. 20) Esse diagnóstico é um alerta: o MCI trata o evangelho como se fosse um produto a ser embalado e vendido. George Barna, citado por MacArthur, exemplifica a mentalidade: Acredito que desenvolver uma mentalidade de marketing é exatamente aquilo que a igreja precisa, se quisermos fazer a diferença na saúde espiritual desta nação, no final deste século. (apud MACARTHUR, 1997, p. 20) A consequência lógica é óbvia — se o objetivo do marketing é satisfazer o consumidor, tudo o que desagrada o consumidor tende a ser removido. Assim, elementos essenciais da mensagem bíblica que “incomodam” — pecado, ira divina, inferno, propiciação — correm o risco de serem suavizados ou omitidos para não afastar plateias. MacArthur denuncia esse processo: Não se engane, a nova filosofia está alterando a mensagem que a igreja anuncia ao mundo, embora muitos que propagam essas ideias considerem-se leais à doutrina bíblica. O cristianismo está novamente em declínio. (MACARTHUR, 1997, p. 20) Além de diluir a mensagem, o MCI redefine o padrão de “ministério saudável”. Sucesso passa a ser medido por resultados externos: crescimento rápido, receitas e quem constróio a igreja mais vistosa. Mas concentrar-se unicamente nesses indicadores traz dois extremos perigosos. Lopes aponta-os com clareza: O primeiro extremo que precisamos evitar é a numerolatria. Hoje, nós estamos vendo igrejas bêbadas pelo sucesso. Elas estão embriagadas pelos resultados. Elas querem quantidade a qualquer custo. Para encher os templos, os pregadores mudam a mensagem e oferecem um evangelho sem exigências […] o segundo extremo é a numerofobia. Essa é a atitude da acomodação. Ela acontece quando a igreja se conforma com a esterilidade e cria justificativas para tentar tapar o sol com a peneira e justificar a sua falta de frutos espirituais. (LOPES, D., 2008 p. 63, grifo do autor) Portanto, tanto a obsessão pelos números (numerolatria) quanto o conformismo estéril (numerofobia) são sinais de desorientação ministerial. Como Lopes observa ainda: A igreja saudável cresce normalmente, mas nem toda igreja que cresce é saudável. (LOPES, D., 2008 p. 215) MCGAVRAN E A ORIGEM ANTROPOLÓGICA DO MCI William McGavran, pioneiro do movimento, trouxe uma abordagem prática e observacional ao estudar por que algumas igrejas crescem e outras não. O que inicialmente veio como interesse missionário transformou-se numa metodologia que privilegia dados e ciências sociais. Lopes resume o diagnóstico de McGavran: McGavran compreendeu que a falta de crescimento da igreja está grandemente condicionada por pensamentos defensivos, por racionalizações teológicas e acomodação espiritual. (LOPES, D., 2008, p. 213) Rainer, citado por Duarte, aponta algo decisivo: McGavran iniciou sua análise das ciências sociais para a Escritura, e não da Escritura para as ciências sociais — o que determinou o DNA do movimento como antropológico mais do que bíblico.  Essa prioridade invertida explica por que muitas soluções propostas pelo MCI resolvem sintomas numéricos sem cuidar da saúde doutrinária e espiritual. Caldas, comentando a realidade contemporânea, nota que em busca de crescimento muitas igrejas adotaram práticas e pressupostos que se assemelham à Teologia da Prosperidade: usar promessas e experiências como mecanismo para atrair multidões. Assim, o MCI acabou por se tornar, em alguns círculos, uma estrutura pragmática que copia técnicas eficazes, não necessariamente verdadeiras. O PRAGMATISMO — UM PERIGO EM DETALHE  O pragmatismo é a tentação de julgar o certo e o eficaz pelo que produz resultados práticos imediatos. Em ministério, isso significa avaliar pregação, liturgia e programas segundo duas perguntas: “Isto funciona?” e “Isto atrai?”. Quando essas se tornam as perguntas centrais, a Bíblia deixa de ser o padrão último e torna-se um recurso entre outros. Manifestações concretas do pragmatismo nas igrejas de hoje: Por que isso é sério? Porque o evangelho não é uma técnica — é o poder de Deus para a salvação (Rm 1.16). Quando substituímos a confiança na eficácia divina pela busca de eficácia humana, perdemos aquilo que torna a igreja única e eficaz perante Deus: fidelidade, perseverança no ensino bíblico e ação do Espírito Santo. MacArthur bem sintetiza a objeção ao pragmatismo: O pragmatismo é a noção de que o significado ou o valor é determinado pelas consequências práticas […] quando o pragmatismo, entretanto, é utilizado para formularmos juízos acerca do certo e do errado ou quando se torna a filosofia norteadora da vida, da teologia e do ministério, acaba inevitavelmente, colidindo com as Escrituras. (MACARTHUR, 1997, p. 7) A Escritura mesmo nos mostra que verdade e eficácia nem sempre andam juntas: o evangelho nem sempre produz resposta favorável (1Co 1.22–23; 2.14), e as mentiras podem ser eficazes para enganar (Mt 24.23–24; 2Co 4.3–4). Portanto, eficácia numérica não é prova de fidelidade. Como resistir ao pragmatismo ? MacArthur sintetiza o critério bíblico de sucesso ministerial: Critérios exteriores tais como afluência, números, dinheiro, ou reações positivas jamais foram a medida bíblica de sucesso no ministério. Fidelidade, piedade, e compromisso espiritual são as virtudes

Quando a igreja se deixa moldar por outras vozes Part. 1

Parte 1/3 Giovanni Casimiro Vivemos um tempo em que muitas vozes tentam moldar a igreja: a cultura, o pragmatismo, o sentimentalismo e até teologias que parecem piedosas, mas afastam do coração do Evangelho. Esta série — “Quando a igreja se deixar moldar por outras vozes” — procura reflectir sobre esses perigos e lembrar qual é a única voz que deve guiar o povo de Deus: a do próprio Senhor, revelada na Sua Palavra. O liberalismo não foi apenas um debate teórico — ele abalou a própria identidade da igreja. Suas ideias penetraram tão fundo que alguns chegaram a considerá-lo quase uma religião à parte. Machen descreveu esse conflito de forma clara: A grande religião da redenção, que sempre foi conhecida como o Cristianismo, está batalhando contra um tipo de crença religiosa totalmente diferente, que se torna ainda mais destrutiva da fé cristã por utilizar a terminologia cristã tradicional. Essa religião moderna não redentora é chamada de ‘modernismo’ ou ‘Liberalismo. (MACHEN, 2012, p. 10) Ou seja: não é apenas uma nova roupagem do cristianismo, mas algo que usa a linguagem da fé para propor uma religião completamente distinta. Esse terreno foi preparado pelo racionalismo e iluminismo, que desde o século XVI deslocaram a filosofia de “serva da teologia” para árbitro da verdade. Costanza resume esse espírito: O racionalismo dava ênfase principalmente a dois pontos: (1) liberdade e dignidade, e (2) investigação científica. (COSTANZA, 2005, p. 82) Esses valores trouxeram benefícios sociais, mas ao mesmo tempo minaram a fé. Quando a razão humana se torna o padrão último, Deus acaba moldado à imagem do homem. O resultado foi descrito por Costanza como ateísmo crescente, declínio da fé e enfraquecimento da vida espiritual. Não é de surpreender que Lopes conclua: “O liberalismo teológico produziu incredulidade, confusão e apostasia. […] As igrejas liberais, sem exceção, acham-se em declínio maciço.” (LOPES, 2008, p. 82) Em outras palavras: igrejas que abandonam a autoridade da Escritura até podem parecer modernas ou atrativas, mas acabam vazias de vida espiritual. Outro traço ligado ao liberalismo foi o deísmo, surgido na Inglaterra do século XVII. Costanza explica que ele surgiu como reação à ideia de que só a igreja ou a revelação do Espírito poderiam ensinar sobre Deus (COSTANZA, 2005, p. 83). O problema é que, nesse modelo, Deus se torna um Criador distante, sem espaço para revelação, milagres, providência ou encarnação (COSTANZA, 2005, p. 84). Esse “Deus ausente” contrasta totalmente com o Deus da Bíblia. Grudem lembra que a providência mostra a ação contínua de Deus no mundo: “Deus está continuamente envolvido com todas as coisas criadas […] preserva-as, coopera com elas e as orienta no cumprimento dos seus propósitos.” (GRUDEM, 2010, p. 250) SCHLEIERMACHER E O PERIGO DO SUBJECTIVISMO  Outro nome central do liberalismo foi Schleiermacher, que colocou a experiência humana como base da teologia conforme conta McDermott (2013, p.153) “Qualquer coisa que a igreja cristã pense sobre Deus deve provir da reflexão a respeito de sua própria experiência.” A ideia de Schleiermacher de que a religião é principalmente sentimento de dependência parece, à primeira vista, até piedosa. Mas na prática é perigosa porque reduz a fé a uma experiência interior subjetiva, deixando de lado o fato de que Deus se revelou de forma objetiva em sua Palavra. Esse pensamento abriu caminho para um cristianismo em que a autoridade final não é mais a Escritura, mas aquilo que eu sinto. E isso vemos hoje em muitas igrejas: O perigo é que quando o critério se torna a emoção individual, cada pessoa se torna uma espécie de autoridade espiritual. Isso fragmenta a igreja, enfraquece a doutrina e cria um ambiente onde a verdade é relativizada. No fim, o que parece espiritual — “eu sinto Deus assim” — acaba sendo uma espiritualidade frágil, sem raiz na Palavra, facilmente abalada por crises, dúvidas ou novas modas religiosas. A experiência é importante, mas não pode substituir a voz de Deus. Quando isso acontece, perdemos a revelação e ficamos reféns do subjectivo. Não por acaso, Criswell afirmou: “Nenhum liberal jamais construiu uma grande igreja, conseguiu um grande reavivamento ou ganhou uma cidade para o Senhor.” (CRISWELL, apud LOPES, 2008, p. 82) Conclusão  O liberalismo pode soar sofisticado, mas não gera vida espiritual. Igrejas saudáveis só podem ser edificadas quando permanecem firmes na suficiência, autoridade e inerrância da Palavra de Deus, tendo Cristo ressurreto no centro de tudo.

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